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Crónica sobre um cortador de cabelos ambulante

26 Março 2015

26-03-2015| VISÃO

Que vida esta. Andar assim pelo mundo da planície ao encontro de barbas e cabelos. Conduzir a carrinha pelas estradas agora primaveris de Beja e de Ferreira do Alentejo para depois a parar no largo da vila e ali aviar sete clientes que aguardam pela navalha e pela tesoura. (É estranha esta ideia de aguardar pela navalha, parece que estamos à espera de uma degola que sabemos não merecer mas a que irresistivelmente nos entregamos).

Como será a vida deste João Silva? No que pensará ao se cruzar no caminho com um rebanho lãzudo sabendo que é tosquiador de outro gado? Afiará as suas navalhas no interior do carro, como os gangsters preparavam as caçadeiras para uma vingança urgente? Em que pensará este vendedor ambulante de cortes de cabelo quando se depara com um cliente cada vez mais careca, que cada vez menos (ou mais?) exige da sua técnica?

O Barbeiro da Vila tem 49 anos e regressou ao Baixo Alentejo depois de ter deixado a empresa de mármores em que trabalhava em Palmela. Ficou a com a barbearia do pai. Como os clientes na minúscula Faro de Alentejo (em Cuba) não abundavam, João foi ter com eles (a história da autoria da jornalista Sónia Calheiros pode ser lida aqui ). Agora é um caixeiro-viajante de tesoura e navalha em riste. Tem um contraponto feminino em Miranda do Douro, Adorinda, que tosa mulheres e homens mirandeses com a mesma eficácia com que limpou durante anos a casa madrilena do presidente do governo de Espanha.

Alguém que não só nos mexe no cabelo como o faz empunhando um objeto cortante. Momentos de intimidade com um estranho. E o que sabemos sobre ele ou ela? O que pensa? Em quem vota? De que filmes gosta? Que músicas houve? É verdade que são conversadores mas serão verdadeiros? Dirão o que lhes vai na alma? Ou é só de circunstância esta conversa, que mesmo assim não deixa de ser íntima? Cortar o cabelo é um estranho momento de proximidade com alguém que nunca será nosso próximo. Por isso os cavalheiros alentejanos são fiéis clientes de João Silva, esperam por ele em fila, pois a cada aparadela, a cada corte, a estranheza desta intimidade forçada se desvanece.

Os nómadas sempre tiveram do homem uma visão melhor do que a nossa, sedentários das cidades, ou quanto muito nómadas entre cidades. Bruce Chatwin descobriu na Patagónia como a errância é um posto de observação privilegiado do ser humano. Passar-se-á o mesmo com João Silva, quando erra entre montes, entre aldeias esmaecidas, com a sua carrinha atulhada de pentes, escovas, tesouras e lâminas? E porque se entrega nas mãos dele, a seguir ao almoço, o cozinheiro que lhe fez a comida. Matutará ele sobre o grau certo de cozedura do arroz? Ou se as pataniscas estavam estaladiças q.b.? Que mistérios guardará o mundo para este homem cujas únicas fronteiras são as da nuca dos seus clientes? E se o almoço não estava a seu gosto? Cuidem-se!