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Centro Histórico
CAMINHADA PELO CENTRO HISTÓRICO DE MIRANDA DO DOURO
Esta caminhada permite-lhe uma autêntica viagem no tempo, por um centro histórico em que a monumentalidade surpreende por detrás de cada fachada. Preste também muita atenção ao que o rodeia, porque aqui nenhuma pedra é insignificante.
Comece a caminhada pela Muralha pré-românica Sécs. X/XI Aqui poderá observar locais com história e descobrir este valioso conjunto monumental. A Reconquista cristã do vale do Douro ao Islão, durante os sécs. IX/XI, apoiou-se nos castelos, que se implantaram então como as primeiras fortificações de base territorial. Três séculos depois, em 1286, o castelo gótico da nova vila de Miranda incorporou uma destas estruturas militares da Alta Idade Média, localizada entre o Douro e o Fresno, onde podemos ver ainda uma cruz pré-românica, num dos silhares do seu paramento nordeste. A parte superior da muralha, em aparelho miúdo e mais irregular, reflecte a tentativa da sua reconstrução, após a Guerra dos Sete Anos, nos finais do séc. XVIII.
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Ao descer, espreite a belíssima paisagem do Rio Douro. A meio do trajecto entre no Postigo da Barca, Séc. XVI. Durante a Idade Média, a vila de Miranda só tinha duas portas, uma a poente e a outra a norte. Mas, com a sua subida a cidade episcopal, em 1545, as relações com o país vizinho obrigaram à abertura de uma terceira porta, em arco quebrado, mais reduzida -- daí o nome de postigo --, que permitia um acesso mais rápido à barca do Douro. Foi o primeiro bispo de Miranda, D. Turíbio Lopes, castelhano, que pagou do seu bolso o custo da calçada que levava do postigo da barca à barra do Douro.
No cimo da Rua do Postigo, do seu lado direito encontra a Igreja da Misericórdia, Sécs. XVI, XVII e XVIII. A Santa Casa da Misericórdia foi fundada pelo bispo D. Rodrigo de Carvalho, entre 1554 e 1559. A construção da sua igreja terá ficado pronta em 1589. A janela neoclássica da fachada é do séc. XVIII. Depois da Sé, que ainda não estava concluída, o maneirismo plasmou-se também neste templo, como nos mostra o arco de meio ponto do portal, ladeado por duas colunas toscanas, com capitéis dóricos. No interior, o retábulo do altar-mor, o das almas e o da Senhora da Misericórdia, todos do séc. XVII, merecem uma visita atenta. Encostado ao seu lado sul, funcionou, entre 1578 e 1958, o Hospital da Santa Casa.
Ali mesmo ao lado encontramos, o Solar dos Buíças, Sécs. XV e XVIII, o único solar brasonado da cidade reflecte dois tempos de construção. O corpo sul, do séc. XV, foi erguido em bom aparelho de granito, imitando a Torre que o Rei D. João I tinha construído pouco tempo antes no Castelo. Três séculos depois, a linhagem medieval dos Buíças, a de maior poder e prestígio de Miranda, já se encontrava ligada às famílias dos Morais e dos Sarmentos, conforme se lê no brasão, coevo do alargamento do edifício para norte. Foi esta construção, erguida sozinha muito cedo, que obrigou à abertura da Rua da Rainha D. Catarina para integrar o solar dos Buíças na trama urbana da cidade.
Volte atrás, e siga pela Travessa da Misericórdia, virando à sua direita encontrará a Antiga Alfândega, Sécs. XV, XVI, XIX e XX. A Alfândega do séc. XV tinha o portal, em arco quebrado, recuado em relação à fachada actual. Um alpendre corria ao longo da frontaria medieval. No séc. XVI, o seu novo portal, em arco de volta perfeita, e incrustado de motivos manuelinos, avançou sobre a rua. Nos finais do séc. XIX, foram rasgadas as actuais janelas, entre outras reformas. Na segunda metade do séc. XX, o telhado medieval, de duas águas, fica apenas com uma pendente. Em 2004, o edifício foi restaurado, tendo sido conservadas as marcas fundamentais da sua longa história. Alfândega, primeiro, posto da Guarda, depois, é hoje a Casa da Cultura Mirandesa.
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Mais à frente e virando na Travessa de Santa Cruz, deparamo-nos com Capela de Santa Cruz, Sécs. XVII e XVIII. Durante a Idade Média, as confrarias da Santa Cruz tinham o piedoso exercício do enterro dos mortos. E, apesar do aparecimento das misericórdias, que as vão substituindo naquele encargo pio, a partir dos fins do séc. XV, a Casa de Santa Cruz de Miranda consegue manter-se como uma confraria muito dinâmica, tendo merecido indulgências do Papa Sisto V, em 1589. A capela do séc. XVII foi completamente reformada na centúria seguinte, conforme nos diz a data gravada por cima do vértice do frontão, que, na sua pureza geométrica, fala a linguagem neoclássica, com ligeiras sílabas de barroco. No seu interior pode ver-se um quadro do séc. XVIII, sobre a Invenção de Santa Cruz, de Damião Bustamante.
Seguimos a Rua Abade Baçal, e entramos numa das zonas mais emblemáticas do Centro histórico, o Largo do castelo, este parece-nos grande, comparada com o tamanho das outras ruas. Aqui encontramos ainda a Alcáçova do Castelo (IIP), Sécs. XIII e XV. Obra de D. Dinis, erguida em pequeno aparelho misto de matriz romana pela Ordem de Avis, nos finais do séc. XIII. De forma rectangular, reforçavam-na nos ângulos quatro torres. A de menagem era a maior e fechava o pátio do lado mais frágil da defesa, sobre o istmo entre o Douro e o Fresno. No canto noroeste, ainda podemos ver a porta da traição. Ao centro, abre-se o poço da água, com 46 degraus. No início do séc. XV, D. João I acrescentou-lhe a 5ª torre, com as suas armas na fachada sul, a única parcialmente de pé. No séc. XVII, foi envolvida a sul por uma estrutura pirobalística. Já antes, nos finais do séc. XV, a revolução da pólvora tinha obrigado à construção da barreira nova, com bocas de fogo, algumas das quais ainda se mantêm. Aqui residiram também alguns dos primeiros bispos de Miranda, na segunda metade do séc. XVI, enquanto não ficou pronto o paço episcopal. A Alcáçova foi arrasada pela explosão do paiol da pólvora, em 8 de Maio de 1762, quando a cidade foi tomada pelo exército de Carlos III, de Espanha, durante a Guerra dos Sete Anos, que, tendo explodido na América do Norte, em 1757, precipitou, cinco anos depois, o declínio de Miranda do Douro, até então uma das maiores praças de armas de Trás-os-Montes.
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Descendo a Rua Lourenço de Távora, viramos à esquerda e aqui revela-se-nos uma vista magnífica sob as muralhas do castelo. Seguimos até chegarmos às Antigas Portas Principais da Cidade (IIP), Sécs. XIII e XVI. Das dez torres medievais do castelo de Miranda, apenas resistiram à tomada da cidade, em 1762, as duas que defendiam as suas portas principais, abertas inicialmente em arco redondo. Mas, na segunda metade do séc. XVI, por razões de segurança, as portas passaram, com o seu novo arco fechado, a ser mais estreitas. Na base da torre sul e no interior da do lado norte, os arquitectos de D. Dinis gravaram um estribo e a flor do lis, os dois símbolos de Avis, a Ordem Militar que dirigiu os trabalhos da construção do castelo da nova vila de Miranda.
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Inicie a subida íngreme da Rua da Costanilha. Aqui poderá ver a Casa Burguesa, Séc. XVI. A fachada desta casa reflecte a arquitectura da nova cidade episcopal. A decoração dos lintéis recria o arco canopial, tão utilizado nos vãos do séc. XV. O bom granito lavrado, a largueza dos vãos e a sua ornamentação, as figuras dos proprietários à janela, cobrindo-se o chefe de família com o prestigiante gorro de borlas (de veludo?), a flor do lis, um coração trespassado por uma flecha, um peixe, um cão e uma mão, com o indicador estendido, são os símbolos que uma família, do topo da burguesia urbana, patriótica, unida, muito cristã, fiel e confiante no futuro, quis mostrar sobre a rua mais cosmopolita da cidade.
Mais à frente, nas quatro esquinas, poderá ver a Casa dos Cachorros Eróticos, Sécs. XIV e XVI. Edifício do séc. XVI, erguido sobre a base de uma construção anterior. Dos sécs. XIV/XV, serão também os chamados cachorros eróticos, que nos revelam os segredos da cama medieval, muito criativa, como vemos... Estas esculturas, sensuais e moralistas, e as janelas de canto, com a sua decoração, fazem deste edifício um dos ex libris da cidade. A platibanda, que substituiu a cornija original, foi introduzida nos finais do séc. XX. Um silhar, por cima do portal, irregularmente picado, poderá dizer-nos que os Távoras, alcaides do Castelo de Miranda entre 1385 e 1759, também terão residido aqui.
Subindo, poderá ainda observar a Antiga Hospedaria do “Zambeira”, Sécs. XV/XVI. Este edifício, de três pisos, reflecte uma acesa disputa no seio da elite urbana pelos espaços mais próximos da Praça Central, no final da Idade Média. Embora erguido em bom aparelho de granito, são as janelas e a sua decoração que dão nas vistas, sobretudo as duas do terceiro piso, em arco duplo, e os quatro cachorros de Baco, que anunciavam a melhor hospedaria da cidade, onde um vinho quente dava as boas vindas aos que chegavam à capital diocesana. Em 1822, era a estalagem do Zambeira, o qual, querendo estar de bem com o Rei e com a nova Assembleia Nacional, dizia que a sua casa era real e nacional, as duas palavras do politicamente correcto da época (vintismo oitocentista).
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De seguida, entrará no largo D. João III. Aqui é crime não se parar e tirar uma fotografia junto das estátuas que simbolizam o povo Mirandês, situadas no centro. No Largo, pode observar do seu lado direito o Solar dos Ordazes, Sécs. XV, XVIII e XIX. Este edifício é bem a medida do prestígio social de uma das linhagens mais poderosas da oligarquia terratenente de Miranda. A sua monumentalidade barroca foi concebida urbanisticamente para assumir um dos rostos mais imponentes da cidade. A frontaria, da segunda metade do séc. XVIII, onde se abrem seis varandas de balcão, sobrepujadas com tímpanos curvos, reutilizou, a nascente, uma estrutura medieval, de aparelho regular, cuja janela original cegou. No alçado poente, um portal, em arco redondo, do séc. XIX, reflecte a reorganização arquitectónica mais tardia do solar do morgado de Fonte de Aldeia, do impetuoso tronco dos Ordazes.
Do lado esquerdo temos, o Paço Municipal, Sécs. XV/XVI e XVII. Em 1545, Miranda do Douro sobe de vila a cidade episcopal. A primeira Casa da Câmara reflecte estes dois tempos da história da cidade. Assim, sobre as duas arcadas, em abóbada de berço, do primitivo Paço Municipal, levantou-se, na segunda metade do séc. XVII, o corpo do moderno edifício, cujo alpendre se apoia na anterior estrutura medieval, através de cinco colunas toscanas. Segundo a inscrição da varanda, de 1689, dirigiu esta reforma da Domus Municipalis o juiz de fora da cidade, Dr. Cardoso e Carvalho. Albergou também a cadeia a partir de 1790. Em 1982, foi aqui instalado o Museu da Terra de Miranda.
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Em frente, vemos a Câmara Municipal, Sécs. XVII/XVIII e XIX. Em 1762, morava aqui o Governador das Armas da Praça de Miranda. Mas a construção era outra, talvez de matriz seiscentista. O actual edifício, neoclássico tardio, remete-nos para os finais do séc. XIX. De planta longitudinal e com a frontaria tripartida por pilastras, o seu corpo central termina num frontão com as armas nacionais e as da cidade. As cinco varandas com balcão de ferro forjado, do segundo piso, e as quatro janelas de guilhotina, do primeiro, cadenciam a sua extensa fachada. No rés-do-chão, há um estreito corredor, em abóbada de berço, que, conjuntamente com o arco de meio ponto do átrio, será tudo quanto ficou do(s) edifício(s) precedente(s).
Erguida para instalar o Tribunal da Comarca, a nova construção acabou por acolher a Câmara, quando, nos meados do séc. XX, a edilidade abandonou, ao fim de mais de cinco séculos, o primitivo Paço Municipal, fronteiro. No seu recheio, inclui-se o imponente quadro naturalista da Terra de Miranda, de Manuel Lima, artista laureado com o Prémio Lupi da Academia de Belas Artes de Lisboa, o busto do rei D. João III e parte da transcrição da sua “Carta per que he feita cidade a villa de Miranda”, de 10 de Julho de 1545, promoção que era obrigatória para a antiga fortaleza medieval poder subir a primeira capital diocesana de Trás-os-Montes.
À medida que avançamos, avistamos a majestosa Sé de Miranda (Monumento Nacional), Sécs. XVI e XVIII. Até meados do séc. XVI, a dimensão da Arquidiocese de Braga não permitia ao pastor apostólico visitar regularmente o seu rebanho transmontano, muito afastado. Por isso, o Papa Paulo III, a pedido do rei D. João III, fundou em 1545 a nova diocese de Miranda. A Igreja de Santa Maria, dos finais do séc. XIII, dava assim o lugar (e a pedra) à nova Sé, cujo projecto foi elaborado pelo arquitecto Gonçalo de Torralva, muito bem aconselhado pelo próprio Rei, que, como monarca do Renascimento, era um diletante da arquitectura. A primeira pedra foi colocada no dia 24 de Maio de 1552 mas o lajeado do pátio só ficou pronto em 1620 ou 1621. A capela-mor é de meados do séc. XVIII. Templo majestoso, de três naves e transepto, foi a Sé que trouxe o Renascimento para Miranda, muito embora as abóbadas de cruzaria sejam ainda subsidiárias do gótico medieval. O retábulo de S. Bento (séc. XVI), o do altar-mor, um dos mais imponentes conjuntos esculturais maneiristas do séc. XVII, da escola de Gregório Hernandez, de Valladolid, e o Menino Jesus da Cartolinha (séc. XVIII) fazem parte do recheio da catedral. Mas, numa cidade exígua, ainda tão esmagada pela cerca medieval, a antiga Sé aparece-nos, de repente, como um edifício/monumento, uma escultura imponente, cujos efeitos de surpresa e espectacularidade são os elementos essenciais.
Seguindo em frente deparamo-nos com o Antigo Paço Episcopal, Séc. XVII.Os primeiros bispos de Miranda tiveram de habitar no Castelo. Só em 1601 se inicia a construção do Paço Episcopal e do Seminário. Quando ficou pronto, mais de um século depois, a sua opulência não era inferior à da Sé, cujo estilo, renascentista, imitou. O Paço desenvolvia-se em torno de um pátio central, cingido por um claustro em arcaria rebaixada, sobre colunas monolíticas. E, embora muito abalado por incêndios sucessivos, durante os sécs. XVII e XVIII, foi a transferência definitiva da sede da Diocese para Bragança, em 1780, que o fez entrar em ruína acelerada. A sombra da sua monumentalidade projecta-se hoje ainda no claustro e no pórtico do Seminário. Mas, não obstante o estado de ruína, o seu poder simbólico mantém-se porque os bispos continuaram sempre a gravar o seu nome no respectivo memorial, à entrada do pórtico renascentista do primeiro Paço Episcopal da Diocese.
Se olharmos em frente, vemos o recuperado Jardim dos Frades Trinos onde se pode descansar um pouco, saborear uma bebida ao som de tudo o que lá se passa e passou …. Recuperado o fôlego, seguimos pela Rua do Convento, e podemos visitar a Antiga Igreja do Convento dos Frades Trinos, Séc. XVIII. Com licença de D. João V, os frades descalços da Ordem da Santíssima Trindade fundaram o seu Convento na cidade. A igreja terá começado a erguer-se em 1718, estando concluída em 1728. Trinta anos depois, foi ampliada. De planta em cruz latina, a sua elegante fachada barroca, brasonada com o símbolo da Ordem, foi concebida urbanisticamente. No interior, mantém-se a lápide tumular do fidalgo que doou as primeiras casas aos frades. Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, o convento e a igreja entraram em ruína. Do primeiro, já nada resta. A segunda foi transformada, em 1999, na Biblioteca Municipal.
De seguida temos, o Antigo Quartel de S. José, Séc. XVIII. Em 1654, a cidade pedia ao Rei D. João IV que “se edificassem quartéis para os soldados”. Mas, durante mais um século, os mirandeses continuaram a ter de alojar os militares em suas casas. O quartel só ficou pronto em 1749, conforme a inscrição sob o nicho de S. José, o patrono militar de Miranda. Construído sob a orientação do Juiz de Fora da cidade e com os recursos da venda do pão do Monte da Piedade, é um edifício disciplinado, cuja função militar comandou a arquitectura, vazada numa fachada extensa, rectilínea, cadenciada de janelas, abertas em par, simetricamente às portas. Depois de alojar o exército da cidade, é hoje o quartel da GNR.
No fundo da rua, poderá passear pela Barbacã Moderna (IIP), Séc. XVI. A partir do final da Idade Média, começam a usar-se as novas armas de fogo, que forçaram a cidade a responder também com novas estruturas defensivas. Preparada apenas para as armas elásticas medievais, a defesa da entrada principal da cidade obrigou a reforçá-la com uma segunda barbacã, adaptada ao uso de artilharia defensiva, cujas portas, em arco redondo, estavam ladeadas de frestas, em forma de troneiras, que permitiam varrer com fogo rasante o acesso à cidade.
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Se tiver ainda forças, poderá sair do perímetro do Centro Histórico, e seguir até ao Chafariz, Sécs.XV/XVI. O chafariz gótico, de planta rectangular e com o espaldar rematado por uma cornija -- a última fonte da via principal de acesso ao castelo -- foi registado por Duarte de Armas, em 1509, na sua vista noroeste de Miranda do Douro. O arquitecto de D. Manuel I, desenhando o brasão real no centro do espaldar do cafariz, então coroado de ameias, quis sublinhar que se tratava de uma obra régia e não municipal. As duas inscrições, informando-nos de que foi “concertado no anno de 1816” e “restaurado em 1955”, apenas documentarão duas das suas últimas reformas. A primeira terá sido executada nos finais do séc. XVI, quando substituíram as ameias pelos três pináculos em forma de pinha. É verosímil que tenha então perdido também o escudo nacional a favor da nova Fonte dos Canos, do outro lado da ponte, que, a partir do início de Seiscentos, passava a deter a preeminência no abastecimento de água à nova capital diocesana.
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Descendo encontrará a Ponte e Fonte dos Canos, Séc. XVI. A Ponte dos Canos, de tabuleiro plano, dos fins do séc. XVI, assenta sobre três arcos quebrados e desiguais. Tem três talhamares, dois a montante e um a jusante. A ponte medieval transpunha o rio mais acima. Mas a construção do aqueduto e da sua fonte terminal, que passavam a abastecer a nova cidade episcopal, obrigaram a transferir a ponte para sul. Quanto à fonte dos canos, é uma estrutura barroca, de tipo relicário, com telhado piramidal em escama, que recebeu no séc. XVIII o painel das Almas do Purgatório. No interior, podemos ver os apoios dos cântaros. Sobre a cornija, as Almas continuam a lembrar-nos em latim que “a nossa água não se vende de graça. Rezai por nós, pois a oração é o seu preço. Pai Nosso, Ave Maria, 1768”.
Para terminar esta caminhada, visite ainda o Aqueduto do Vilarinho, Séc. XVI. Durante o seu período medieval, Miranda abastecia-se de água nos vários poços, intra muros, e em algumas fontes dos arrabaldes. E, embora a sua subida a urbe episcopal não tivesse disparado o crescimento populacional, as elites da nova cidade diocesana, que era também sede de Comarca, eram bastante mais exigentes. O aqueduto, dos fins do séc. XVI, conduzia a água até à fonte da margem direita do Fresno. A sua reduzida altura não permitia à corrente atingir por gravidade a cidade, que era assim abastecida, desde o rio, por bestas carregadas com cestos aguadeiros. Correndo subterrâneo, é sobre o ribeiro do Vilarinho que o aqueduto se agiganta, com os seus seis arcos redondos e desiguais, que deram de beber à cidade durante mais de três séculos. A norte do Douro, é um dos dois aquedutos existentes.
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Após esta caminhada, onde cada pedra foi uma página da sua brilhante história, descanse um pouco e para recuperar forças, desfrute da boa gastronomia que Miranda do Douro tem para lhe oferecer.