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“Festa do Menino” de Vila Chã de Braciosa reconhecida como Património Cultural Imaterial'
A Festa do Menino de Vila Chã de Braciosa foi inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, em regime de Salvaguarda Urgente, por despacho de 8 de setembro de 2026, publicado hoje em Diário da República.
A decisão constitui um importante reconhecimento de uma manifestação cultural profundamente enraizada na comunidade de Vila Chã de Braciosa e representa mais um passo na valorização e salvaguarda do património cultural imaterial do concelho de Miranda do Douro.
A inscrição reconhece a importância da Festa do Menino enquanto expressão da identidade da comunidade, bem como a sua dimensão histórica, social e cultural. É também reconhecida a necessidade de assegurar a continuidade dos seus contextos de transmissão, perante os riscos e ameaças que atualmente se colocam à sua preservação.
O processo de valorização dos rituais ancestrais com máscara do Solstício de Inverno teve início em 2024, quando o Município de Miranda do Douro avançou com a intenção de inscrever no Registo Nacional do Património Cultural Imaterial as manifestações realizadas em Vila Chã de Braciosa, São Pedro da Silva e Constantim.
Na altura, o Município apresentou uma proposta conjunta para os três rituais, enquanto manifestações integrantes das festas e rituais do Solstício de Inverno da Terra de Miranda. No decorrer do processo, foi solicitado que cada manifestação fosse objeto de uma candidatura individual, tendo o Município procedido à apresentação dos respetivos processos.
A decisão agora publicada diz respeito à Festa do Menino de Vila Chã de Braciosa. Os processos relativos à Festa de Santa Luzia, em São Pedro da Silva, e à Festa de Constantim, que integram igualmente este conjunto de rituais ancestrais do Solstício de Inverno, encontram-se ainda em apreciação.
Uma tradição ancestral que continua viva
Realizada no dia 1 de janeiro, a Festa do Menino está ligada ao peditório e à saudação aos moradores, feitos de casa em casa, para a Festa do Menino Jesus. A manifestação é também conhecida como Festa do Ano Novo ou Festa da Velha.
Logo pela manhã, a Velha, o Bailador e a Bailadeira percorrem as ruas da aldeia, acompanhados pela gaita de foles, pelo bombo e pela caixa. Ao longo da ronda, depois das danças, são saudados os moradores de cada casa, sendo recebidos donativos, tradicionalmente em dinheiro ou em produtos de fumeiro, transportados na vara da Velha.
A ronda pela aldeia termina antes da missa solene, celebrada por volta do meio-dia, com a participação dos músicos e da bailadeira. Após a celebração religiosa, a tradição prossegue com o acendimento da grande fogueira no largo da igreja, seguindo-se momentos de convívio e bailarico durante a tarde e a noite.
A antiguidade desta manifestação encontra-se também documentada em trabalhos etnográficos. Benjamim Pereira, na sua obra Máscaras Portuguesas, publicada em 1973, descreveu já os personagens, os trajes e os rituais associados à Festa da Velha de Vila Chã de Braciosa.
Salvaguardar um património vivo
Os rituais do Solstício de Inverno constituem manifestações profundamente ligadas às comunidades onde são praticados. Para além da sua dimensão cultural e simbólica, estas festas representam importantes momentos de encontro e participação comunitária, contando também com a presença de pessoas que regressam temporariamente às suas aldeias durante a época natalícia.
A necessidade de salvaguardar estas manifestações assume particular importância num território marcado pela diminuição da população residente e pelo envelhecimento demográfico. Apesar destes desafios, os rituais continuam a mobilizar as comunidades locais e a despertar o interesse de visitantes, incluindo de territórios vizinhos de Espanha.
A inscrição da Festa do Menino de Vila Chã de Braciosa no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, em regime de Salvaguarda Urgente, constitui um reconhecimento da sua importância e um instrumento para reforçar a sua preservação e transmissão.
O Município de Miranda do Douro continuará a acompanhar os processos relativos às manifestações de São Pedro da Silva e Constantim, com o objetivo de ver reconhecido e salvaguardado este conjunto de tradições que constitui uma expressão singular da identidade cultural da Terra de Miranda.
Para o Município, preservar este património significa garantir que estas manifestações, os seus rituais, personagens, músicas, saberes e formas de participação comunitária possam continuar a ser vividos e transmitidos às futuras gerações.
Miranda do Douro, 22 de setembro de 2026